Gomorra, de Roberto Saviano, é um relato impressionante sobre o poder empresarial e as práticas criminosas da Camorra napolitana. Num registo documental, Saviano desvenda as novas lógicas e as novas dinâmicas do crime organizado, da sua estrutura e das suas ramificações, descrevendo os investimentos, legais e ilegais, nos mais variados sectores – recolha e tratamento de lixos, construção civil, empresas de saneamento, venda a retalho, produção têxtil, importação e exportação de electrodomésticos e outros bens de consumo, etc. Tudo isto faz parte de uma nova face da economia do crime, das novas fontes de rendimento que o alimentam e perpetuam.
Mas Gomorra é também a história de homens marcados por um lugar, “um lugar onde o mal se torna todo o mal e o bem todo o bem”, como se aí só fosse possível escolher um de dois caminhos: para o céu ou para o inferno, sem espaço para hesitações, nem zonas cinzentas. Nápoles é uma cidade que se deixa estigmatizar pelo “Sistema”, uma cidade que se fecha sobre si própria, apesar de ter um dos portos mais movimentados do mundo. Nápoles é uma pústula a apodrecer ao Sol, aparentemente sem salvação possível. “ (…) levantou-se de manhã cedo e foi ao lugar onde tinha estado na presença do Senhor. Voltando os olhos para o lado de Sodoma e Gomorra e para a extensão do vale, viu elevar-se da terra um fumo semelhante ao fumo de uma fornalha.” (Génesis 19, 27)
Maria Teresa Loureiro
In: Revista LER, Julho 2008
Terça-feira, 8 de Julho de 2008
Arquitecturas do Acaso
“Abrir as portas ao acaso significa estar vivo.” É com esta frase que Stefan Klein encerra o livro cujo tema põe em causa a ordem ilusória em que vivemos: o papel inquestionável do acaso na nossa existência.
Destino ou acaso, será a escolha uma questão de fé? Admitir que a nossa vida cumpre um caminho preestabelecido deixa-nos mais descontraídos e alimenta esta nossa sede de compreender e dominar o mundo. Gostaríamos de poder desvendar o futuro, pois achamos que, se nos livrássemos do inesperado, a nossa vida passaria a ser mais agradável, mas esquecemo-nos o quanto nos aborrece a monotonia e que os imprevistos acabam por tornar a nossa existência empolgante. O cérebro ajuda-nos nesta tendência para subestimar os efeitos do acaso, pois, sendo defensor da simplificação e da padronização, dota-nos de truques cuja função, nem sempre ideal, é levar-nos a só ver o que queremos e a transformar a mais evidente coincidência casual numa ocorrência estrategicamente delineada pelo destino. E na verdade, será que estamos dispostos a acreditar que os acontecimentos e acasos com que os nossos filhos se deparam todos os dias influenciam mais a evolução do relacionamento que eles estabelecem com o mundo que os rodeia fora de casa do que a educação que nos esforçamos por lhes dar, e de que tanto nos orgulhamos?
“O sucesso é composto por 95% de sorte e 5% de capacidade.” Klein socorre-se das palavras do filantropo americano Julius Rosenwald, para nos avisar que o sucesso pouco depende da nossa vontade, são demasiadas as circunstâncias e as coincidências que interferem nos rumos que traçamos. Resta-nos aprender a tirar o melhor partido dessas forças aleatórias e imprevisíveis, para reduzirmos as consequentes perdas e impactos negativos, e admitir o “jeito” que, por vezes, nos dá ser o acaso a decidir por nós, evitando-nos posteriores sentimentos de culpa; só assim conseguimos avançar e evoluir.
Leonardo da Vinci “procurava conscientemente os acasos como fonte de inspiração para as suas criações”, era a sua maneira de se sentir livre. Embora nos dê a sensação de fazermos parte de um jogo que não dominamos e, por vezes, nos surpreenda com ocorrências dolorosas e negativas, o acaso torna-nos mais atentos e estimula a nossa imaginação e criatividade; comanda as nossas vidas, mas garante-nos a emoção do inesperado.
Maria Teresa Loureiro
In: Revista LER, Julho 2008
Destino ou acaso, será a escolha uma questão de fé? Admitir que a nossa vida cumpre um caminho preestabelecido deixa-nos mais descontraídos e alimenta esta nossa sede de compreender e dominar o mundo. Gostaríamos de poder desvendar o futuro, pois achamos que, se nos livrássemos do inesperado, a nossa vida passaria a ser mais agradável, mas esquecemo-nos o quanto nos aborrece a monotonia e que os imprevistos acabam por tornar a nossa existência empolgante. O cérebro ajuda-nos nesta tendência para subestimar os efeitos do acaso, pois, sendo defensor da simplificação e da padronização, dota-nos de truques cuja função, nem sempre ideal, é levar-nos a só ver o que queremos e a transformar a mais evidente coincidência casual numa ocorrência estrategicamente delineada pelo destino. E na verdade, será que estamos dispostos a acreditar que os acontecimentos e acasos com que os nossos filhos se deparam todos os dias influenciam mais a evolução do relacionamento que eles estabelecem com o mundo que os rodeia fora de casa do que a educação que nos esforçamos por lhes dar, e de que tanto nos orgulhamos?
“O sucesso é composto por 95% de sorte e 5% de capacidade.” Klein socorre-se das palavras do filantropo americano Julius Rosenwald, para nos avisar que o sucesso pouco depende da nossa vontade, são demasiadas as circunstâncias e as coincidências que interferem nos rumos que traçamos. Resta-nos aprender a tirar o melhor partido dessas forças aleatórias e imprevisíveis, para reduzirmos as consequentes perdas e impactos negativos, e admitir o “jeito” que, por vezes, nos dá ser o acaso a decidir por nós, evitando-nos posteriores sentimentos de culpa; só assim conseguimos avançar e evoluir.
Leonardo da Vinci “procurava conscientemente os acasos como fonte de inspiração para as suas criações”, era a sua maneira de se sentir livre. Embora nos dê a sensação de fazermos parte de um jogo que não dominamos e, por vezes, nos surpreenda com ocorrências dolorosas e negativas, o acaso torna-nos mais atentos e estimula a nossa imaginação e criatividade; comanda as nossas vidas, mas garante-nos a emoção do inesperado.
Maria Teresa Loureiro
In: Revista LER, Julho 2008
Terça-feira, 3 de Junho de 2008
A Vida e as Aventuras do Rapaz Relâmpago
"A Vida e as Aventuras do Rapaz Relâmpago" é o testemunho que Bill Bryson nos oferece da década de 50, do século XX. Nessa época quase todos os heróis viviam nos EUA; o Super-Homem, o Sky King, o Zorro, o Roy Rogers, a Mary O’Leary, as chefias políticas e militares, os cientistas e os intelectuais, alguns outros adultos, quase todas as crianças e o próprio Bill Bryson, quando ainda vestia a “Sagrada Camisola de Zap”, heróis quase sempre desmentidos nas suas virtudes pelos juízos da História.
Eram anos com “propostas pouco realistas”, em que todos se sentiam felizes por consumir novos produtos. Tudo parecia ser benéfico e era recebido com euforia; desde os electrodomésticos, a comida instantânea, uma cartilha ideológica, a televisão, os carros, até aos primeiros testes nucleares.
Bill Bryson constrói uma narrativa que deixa perceber paralelismos entre os comportamentos dos heróis das histórias aos quadradinhos, muitas das quais lidas no “Curral dos Miúdos”, as séries televisivas, os filmes de ficção científica, e os comportamentos sociais de uma América branca que se julgava a si própria indestrutível.
Como todos os super-heróis, o Rapaz Relâmpago vem de um planeta distante (Electrão), mas aprende a gostar do planeta onde passa a viver, aprende a gostar dos pais presuntivos, dos colegas de escola, da cidade onde mora, enfim, do mundo que o rodeia.
“Este é um livro sobre pouca coisa: sobre ser pequeno e ficar maior lentamente.” Mas talvez, nenhuma, nem todas reunidas, as virtudes heróicas por si só sejam suficientes para conseguir a imortalidade. Maria Teresa Loureiro.
Eram anos com “propostas pouco realistas”, em que todos se sentiam felizes por consumir novos produtos. Tudo parecia ser benéfico e era recebido com euforia; desde os electrodomésticos, a comida instantânea, uma cartilha ideológica, a televisão, os carros, até aos primeiros testes nucleares.
Bill Bryson constrói uma narrativa que deixa perceber paralelismos entre os comportamentos dos heróis das histórias aos quadradinhos, muitas das quais lidas no “Curral dos Miúdos”, as séries televisivas, os filmes de ficção científica, e os comportamentos sociais de uma América branca que se julgava a si própria indestrutível.
Como todos os super-heróis, o Rapaz Relâmpago vem de um planeta distante (Electrão), mas aprende a gostar do planeta onde passa a viver, aprende a gostar dos pais presuntivos, dos colegas de escola, da cidade onde mora, enfim, do mundo que o rodeia.
“Este é um livro sobre pouca coisa: sobre ser pequeno e ficar maior lentamente.” Mas talvez, nenhuma, nem todas reunidas, as virtudes heróicas por si só sejam suficientes para conseguir a imortalidade. Maria Teresa Loureiro.
In: Revista LER, Junho de 2008
JOGO CEGO
“Prenúncio de Chuva”, do norte-americano Dennis Lehane, é o quinto romance vivido pelo detective privado Patrick Kenzie. A história parece simples, quase demasiado comum numa cidade como Boston. Karen Nichols, o género de mulher que passava as meias a ferro e tinha uma colecção de peluches, contrata Patrick Kenzie para a livrar de um homem que a anda a assediar, o tipo de homem que pensava constantemente que alguém o observava por admiração ou inveja. Mas as aparências iludem, e o que parece ser um caso resolvido de forma satisfatória, renasce como um pesadelo, quando meses mais tarde, a imaculadamente bem-comportada Karen se atira, nua, da plataforma de observação da alfândega, deixando para trás um rasto incoerente de drogas e prostituição e as palavras gravadas na memória do dono de um motel de má fama Vês? Ninguém ama. Ninguém ama.
Imprevisível desde o início, e sem garantia de vir a ter um final feliz, a intersecção da profundidade e detalhe característicos da investigação policial com o ritmo e o choque do thriller psicológico arrasta-nos pelas ruas de Boston e pelo pântano de mirtilos de Plymouth, como espectadores de um jogo do gato e do rato em que nem sempre é claro quem é o caçador e quem é a presa. A história estrutura-se como o argumento de um filme; as descrições minuciosas dos espaços e das sensações dão o ritmo especial ao desenrolar da acção, física e psicologicamente violenta.
Quais três mosqueteiros, vigilantes e vingadores, Patrick Kenzie, Angela Gennaro e Bubba Rogowski complementam-se e apoiam-se na caça contra-relógio ao impiedoso responsável pelo suicídio de Karen Nichols, um homem com personalidade magnética que despreza limites, perito em traçar planos de contingência para baralhar pistas.
Patrick mantém-se fiel aos seus padrões de humanidade e quase se deixa submergir pela pressão psicológica criada pelo sociopata que o assombra. Angie, neta de um chefe da máfia, o que a protege da perversidade do assassino, é a voz racional que segura o detective à realidade (não o deixes entrar-te na cabeça. É o que ele quer). Bubba é a força bruta (ao seu lado, John Wayne era um medricas), com lampejos de perspicácia inesperados, que garante a sobrevivência dos três.
Como num puzzle, as personagens são encaixadas e ajustadas nos espaços que lhes foram reservados pela mente brilhante e cruel do assassino, que, como um veneno incolor e inodoro, se entranha lenta, mas eficazmente, na vida das vítimas, até destruir tudo o que as rodeia e as arrasar moralmente. Em câmara por vezes lenta, por vezes em velocidade acelerada, os diálogos criam uma dinâmica própria no enredo e transmitem-nos a angústia, o medo e mesmo a dor, colocando-nos em comunhão total com as personagens. Através de Patrick, cada uma delas vê-se obrigada a confrontar-se com os seus infernos íntimos, mas é também através dele que expurgam os pecados do passado, ao abrirem caminho para a resolução inesperada do caso.
Mas o sol começava a desvanecer-se e a brisa, moderadamente fria e soprando entre as árvores, trazia consigo um ténue prenúncio de chuva. Maria Teresa Loureiro.
Imprevisível desde o início, e sem garantia de vir a ter um final feliz, a intersecção da profundidade e detalhe característicos da investigação policial com o ritmo e o choque do thriller psicológico arrasta-nos pelas ruas de Boston e pelo pântano de mirtilos de Plymouth, como espectadores de um jogo do gato e do rato em que nem sempre é claro quem é o caçador e quem é a presa. A história estrutura-se como o argumento de um filme; as descrições minuciosas dos espaços e das sensações dão o ritmo especial ao desenrolar da acção, física e psicologicamente violenta.
Quais três mosqueteiros, vigilantes e vingadores, Patrick Kenzie, Angela Gennaro e Bubba Rogowski complementam-se e apoiam-se na caça contra-relógio ao impiedoso responsável pelo suicídio de Karen Nichols, um homem com personalidade magnética que despreza limites, perito em traçar planos de contingência para baralhar pistas.
Patrick mantém-se fiel aos seus padrões de humanidade e quase se deixa submergir pela pressão psicológica criada pelo sociopata que o assombra. Angie, neta de um chefe da máfia, o que a protege da perversidade do assassino, é a voz racional que segura o detective à realidade (não o deixes entrar-te na cabeça. É o que ele quer). Bubba é a força bruta (ao seu lado, John Wayne era um medricas), com lampejos de perspicácia inesperados, que garante a sobrevivência dos três.
Como num puzzle, as personagens são encaixadas e ajustadas nos espaços que lhes foram reservados pela mente brilhante e cruel do assassino, que, como um veneno incolor e inodoro, se entranha lenta, mas eficazmente, na vida das vítimas, até destruir tudo o que as rodeia e as arrasar moralmente. Em câmara por vezes lenta, por vezes em velocidade acelerada, os diálogos criam uma dinâmica própria no enredo e transmitem-nos a angústia, o medo e mesmo a dor, colocando-nos em comunhão total com as personagens. Através de Patrick, cada uma delas vê-se obrigada a confrontar-se com os seus infernos íntimos, mas é também através dele que expurgam os pecados do passado, ao abrirem caminho para a resolução inesperada do caso.
Mas o sol começava a desvanecer-se e a brisa, moderadamente fria e soprando entre as árvores, trazia consigo um ténue prenúncio de chuva. Maria Teresa Loureiro.
In: Revista LER, Junho de 2008
Quarta-feira, 21 de Maio de 2008
Terça-feira, 20 de Maio de 2008
Cabelos sem fronteiras
Cabelos políticos, cabelos jurídicos, cabelos teatrais, cabelos cinéfilos, cabelos desportivos, cabelos simples ou esculturais em cabeças com diferentes ideais. Desde a banca ao governo, desde a televisão à economia, são muitas e diferentes as cabeças que se oferecem à criatividade e savoir-faire dos cortes certeiros dos mestres do Cabeleireiro Milénio, bem no centro da cidade de Lisboa.
Nelson Santana descobriu os seus dotes com apenas 15 anos, num pequeno cabeleireiro de Queluz, mas mudou-se para Lisboa, onde abriu o Milénio, no final do século XX, com o seu sócio, Amândio Costa, que leva mais de trinta anos de profissão. A equipa estende-se a João Franco e Fernando Reis e tem uma clientela que cresce à velocidade dos cabelos mais rebeldes.
Todos os dias de cortes e penteados trazem clientes especiais a um espaço que entrança o moderno e o clássico, num estilo italiano virado para a funcionalidade e o conforto elegante. Recebe figuras públicas e privadas, conhecidas ou discretas, à procura dos cuidados dos cabeleireiros do Milénio.
Nelson corta o cabelo de Paulo Portas há mais de 25 anos. O corte do procurador-geral da República, Fernando Pinto Monteiro, está a cargo do Fernando, vai para trinta anos. O cinema está nas mãos de João, que enquadra o cabelo de António Pedro Vasconcelos, há já pelo menos duas décadas, e Amândio dedica-se ao comendador Horácio Roque desde 1996, mais coisa menos coisa.
Há nove anos que os cabeleireiros do Milénio acompanham a evolução de uma cidade cosmopolita, cada vez mais fulgurante e atraente, e trabalham com profissionalismo e dedicação para aperfeiçoar a aparência pessoal dos seus clientes. Eles sabem que “hoje em dia, os homens estão cada vez mais preocupados com a sua imagem” e o cabelo é uma moldura que pode realçar ou adoçar as particularidades da pintura discreta ou radiosa que é uma cara. Curtos, médios ou compridos, todos os cortes lhes exigem rigor e, muitas vezes, criatividade. Uma profissão “privilegiada”, com futuro garantido que desconhece fronteiras de ideais e convicções, num espaço onde o corte do cabelo é a palavra de ordem dominante.
In: Revista FrontLine, n.º 2, Junho 2008
Maria Teresa Loureiro
Nelson Santana descobriu os seus dotes com apenas 15 anos, num pequeno cabeleireiro de Queluz, mas mudou-se para Lisboa, onde abriu o Milénio, no final do século XX, com o seu sócio, Amândio Costa, que leva mais de trinta anos de profissão. A equipa estende-se a João Franco e Fernando Reis e tem uma clientela que cresce à velocidade dos cabelos mais rebeldes.
Todos os dias de cortes e penteados trazem clientes especiais a um espaço que entrança o moderno e o clássico, num estilo italiano virado para a funcionalidade e o conforto elegante. Recebe figuras públicas e privadas, conhecidas ou discretas, à procura dos cuidados dos cabeleireiros do Milénio.
Nelson corta o cabelo de Paulo Portas há mais de 25 anos. O corte do procurador-geral da República, Fernando Pinto Monteiro, está a cargo do Fernando, vai para trinta anos. O cinema está nas mãos de João, que enquadra o cabelo de António Pedro Vasconcelos, há já pelo menos duas décadas, e Amândio dedica-se ao comendador Horácio Roque desde 1996, mais coisa menos coisa.
Há nove anos que os cabeleireiros do Milénio acompanham a evolução de uma cidade cosmopolita, cada vez mais fulgurante e atraente, e trabalham com profissionalismo e dedicação para aperfeiçoar a aparência pessoal dos seus clientes. Eles sabem que “hoje em dia, os homens estão cada vez mais preocupados com a sua imagem” e o cabelo é uma moldura que pode realçar ou adoçar as particularidades da pintura discreta ou radiosa que é uma cara. Curtos, médios ou compridos, todos os cortes lhes exigem rigor e, muitas vezes, criatividade. Uma profissão “privilegiada”, com futuro garantido que desconhece fronteiras de ideais e convicções, num espaço onde o corte do cabelo é a palavra de ordem dominante.
In: Revista FrontLine, n.º 2, Junho 2008
Sexta-feira, 9 de Maio de 2008
O Menino Que Queria Viver Com o Sol
Era uma vez um menino que queria viver com o Sol. Não lhe chegava adivinhá-lo lá no alto, escondido pelas nuvens ou a espreitar por detrás das montanhas. O que o menino queria mesmo era viver com ele: brincar às escondidas, à apanhada, à cabra-cega, enfim, a tudo o que os meninos gostam de brincar.
O que o menino queria mesmo era brincar com o Sol. Vivia numa aldeia muito pequenina. Só tinha dez casinhas, uma escolinha e uma igreja, também miniatura. Os habitantes da aldeia eram muito poucos e não havia meninos da idade do menino que queria viver com o Sol.
A aldeia tinha um nome muito engraçado - Cantinho à Espera do Sol - e ficava aconchegada bem no fundo de uma colina, entre duas montanhas muito altas que no inverno ficavam cobertas de neve até meio caminho.
Ora o menino que queria ser amigo do Sol tinha um nome engraçado, chamava-se Mínimo. É que antes de ele nascer, os pais, e todos os habitantes do Cantinho à Espera do Sol, tinham decidido, depois de muitas conversas e discussões prolongadas pela noite dentro, dar-lhe o nome de Máximo, ou Máxima se fosse rapariga, pois ia ser o primeiro bebé a nascer na aldeia nos últimos cinco anos. E isso era o “máximo” de felicidade para todos.
Só que no dia em que o menino nasceu e deu o seu primeiro grito fora da barriguinha da mãe, todos ficaram muito atrapalhados quando repararam que era um menino muito pequenino. E logo ali, num dos quartos da casa do médico que ajudara o menino a nascer, e sem mais demoras, o Presidente da Câmara do Cantinho à Espera do Sol disse aos pais que era melhor trocar o nome do menino, pois ele era tão pequenino que não fazia sentido chamar-lhe Máximo. Foi assim que o menino que queria viver com o Sol quando nasceu recebeu o nome de Mínimo.
Nos primeiro meses, o menino Mínimo chorou sem parar, durante todo o dia e parte da noite. Nada conseguia acalmá-lo, nem satisfazer. Até que um dia, no dia em que o menino Mínimo fez um ano, a senhora que trabalhava no Posto dos Correios ofereceu-lhe um brinquedo que viera ter à aldeia por engano e sem remetente, por isso a Dona Olga não podia devolvê-lo. O menino Mínimo, a meio de um dos seus berreiros de infelicidade, ficou vidrado no presente. Era um Sol, com uma cara muito redonda, muito engraçada. E o melhor de tudo é que tinha um cordelinho entre dois dos raios que lhe envolviam a cabeça que quando se puxava fazia tocar música de embalar e iluminava a cara. E para espanto de todos, esse foi o primeiro dia em que o menino não chorou, nem berrou durante todo o dia. E os pais, que já andavam desesperados, puderam finalmente descansar durante uns tempos. Até ao dia em que o gato Titó, grande traquinas, apanhou o menino Mínimo a dormir a sesta e os pais distraídos a ver televisão e roubou o Sol que dava música de embalar e iluminava a cara redonda e o escondeu em parte incerta e desconhecida. Os pais deram volta à casa e ao jardinzinho das traseiras, todos os habitantes da aldeia Cantinho à Espera do Sol andaram de rabo para o ar à procura do Sol, do menino, mas não conseguiram achá-lo.
E a birra do menino recomeçou. Mais nenhum brinquedo lhe interessava, nada o distraía da sua infelicidade. E assim passou mais um ano.
No dia em que o menino fez 2 anos, a professora da aldeia do Cantinho à Espera do Sol foi à festa de aniversário do menino Mínimo e levou-lhe um livro muito bonito que tinha um grande Sol amarelo e sorridente na capa. E o menino, logo que viu a cara do Sol ao pé do seu narizito, começou-se a rir e a palrar de felicidade. E mais uma vez os pais e todos os habitantes da aldeia pequenina puderam descansar durante uns tempos. Até ao dia em que o menino Mínimo teimou em levar o livro do Sol para tomar banho com ele. Sem que os pais tivessem tido tempo de o salvar, lá mergulhou o livro dentro da banheira cheia de água e espuma. E o menino viu o livro ir ao fundo e voltar à superfície devagarinho e desatou a chorar quando a cara do Sol começou a desfazer-se lentamente dentro da água azulada. E o martírio dos pais e de todos os habitantes da aldeia Cantinho à Espera do Sol recomeçou. Só que com uma diferença: a partir de então, os pais perceberam que o menino Mínimo gostava muito do Sol e que só o Sol é que parecia fazê-lo feliz. Foi um alívio e um grande problema também, pois a aldeia Cantinho à Espera do Sol chamava-se assim precisamente por raramente, ou quase nunca ver o Sol, pois estava bem no fundo de duas grande montanhas e estas montanhas tinham a mania de prender as nuvens entre elas e não as deixar voar para mais lado nenhum. E o Sol bem tentava espreitar, mas não conseguia nem por nada. Era um desespero para o Sol e para a aldeia que continuava Cantinho à Espera do Sol. E o menino Mínimo continuava infeliz, a chorar por não ter nenhum Sol ao pé dele.
Um dia, o pai do menino Mínimo que era um grande inventor e já estava farto de o ouvir a chorar e a embirrar pôs-se a pensar que tinha de arranjar uma solução para fazer o Sol aparecer lá no alto, entre as montanhas. Se não fossem aquelas nuvens ali presas, já velhas e cansadas de estarem no mesmo sítio já o Sol não tinha desculpa para não brilhar por cima da aldeia Cantinho à Espera do Sol e já a aldeia podia mudar de nome.
Magicou, magicou. Fartou-se de fazer desenhos e contas num rolo gigante de papel e, por fim, enfiou-se na garagem das invenções depois de dar ordens que não queria ser interrompido por nada nem por ninguém, nem para comer. Até o menino se calou de tão espantado com a voz autoritária do pai. Mas por pouco tempo, logo que o pai trancou a porta da garagem lá voltou à sua choraminguice habitual.
O pai esteve fechado na garagem das invenções três dias inteirinhos, a trabalhar sem parar, nem para dormir. Ouvia-se durante todo o dia e toda a noite os barulhos mais variados: madeira a ser serrada, pano a ser rasgado, berbequins, marteladas, etc. E na manhã do quarto dia abriu-se a porta da garagem das invenções e lá de dentro saiu uma maquineta muito estranha: parecia um pássaro gigante, mas de madeira e pano. Toda a aldeia veio ver o que se passava, tal o burburinho que, desde logo, começou a avançar pelas ruazinhas do Cantinho à Espera do Sol. O Presidente da Câmara foi o último a chegar e por isso apareceu muito mal-disposto. Nem sequer havia uma fita para ele cortar, que irresponsabilidade e falta de consideração. Mesmo assim, conseguiu abrir caminho por entre os aldeãos demasiado espantados para repararem nele, e chegou à primeira fila mesmo no limite.
(História incompleta)
Subscrever:
Mensagens (Atom)